Pouco depois dos cogumelos
Depois de sentir o primeiro baque, Fernando
caiu como homem – na giratória – oferecendo a pequena cobertura que
ajudou Tomás a alcançar a trincheira. Cinco segundos a salvo no buraco,
Tomás ainda tremia involuntariamente com os tiros explodindo blocos de
terra sobre sua cabeça, cobrindo o ar com uma poeira vermelha,
constantemente atravessada por gritos e estilhaços do mundo.
Mas uma batalha estúpida numa guerra sem motivos reais.
Interesses de tubarões inimigos em partes diferentes do mundo. Cinco
engravatados jogando xadrez e discutindo pelo telefone. Cidades
transformadas em tapetes de escombro + ferro distorcido. Horizonte em
chamas. Pouco depois dos cogumelos. Corpos inchados flutuando em cada
rio poluído. Cabeças, troncos e membros arrancados, apodrecendo sob a
chuva ácida.
A própria Mãe Natureza agonizava no leito de morte.
Enquanto recarregava, Tomás foi acertado pela inesperada revelação de
que tudo estava interligado – como as flores e as abelhas, que são, na
verdade, um único organismo. Ele sentiu que tudo estava interligado, e
que esse tudo morria.
Tomás, que nunca foi de sonhos lúcidos, teve a
insistente impressão de estar sonhando. Interrompeu o processo de
recarga e deu um murro no chão, pra ter certeza.
Sim – aquilo era exatamente o que ele aprendera,
durante toda a vida, a interpretar como sendo a Realidade – logo, ele
estava sonhando.
Aquilo não tinha nenhuma qualidade de Realidade.
Engraçado, na verdade, que ele pudesse se confundir por tanto tempo...
Tomás recordou o insondável, e lembrou os primeiros
dias de tédio, quando resolvera sonhar para passar o tempo. Lembrou-se
dos primeiros 1.728.000 anos de perfeição – em que não sonharia nada
além da pura realização e prazer. Enquanto ainda ouvia os tiros e gritos
que sonhava, Tomás lembrou as experiências oníricas que empreendeu
depois do primeiro período de contínuos caprichos. Lembrou-se de como o
tédio do prazer constante o levara a se arriscar em sonhos cada vez mais
imprevisíveis e permeados por fatias mais gordas de loucura e caos. Em
meio à guerra fantasiosa que o rodeava, sentiu de novo o frenesi
atrevido da antiga ânsia de perder o controle – algo no qual ele ainda
se deliciava, dentro de cada junkie.
Num misto de raiva e divertimento, Tomás compreendeu
que finalmente havia atingido o estado de pesadelo, e que sonhava com
suicídio.
Como em qualquer pesadelo do tipo, experimentado por
qualquer um de nós, é natural que se acorde logo antes do fim – assim,
Tomás largou a arma dentro da trincheira e sem hesitação, ou medo,
caminhou na direção do inimigo. Esteve sob a mira certa de uma
metralhadora, por certo tempo, mas aquele soldado acordou a tempo de
soltar o gatilho, já que não existe razão para matar a si mesmo, depois
de perceber que você estava apenas sonhando com isso.
Um por um, cada pássaro e cada pessoa – cada folha e
todo ser vivo – descobriu ser apenas um; que estava, na verdade,
sonhando ser cada um deles.
De forma que o mundo desapareceu e Deus, satisfeito,
não voltou a sonhar por um período igualmente longo de tempo.