Delírios Cotidianos

 
"These words I write keep me from total madness"
Charles Bukowski

Mestre Bukowski
 

Pouco depois dos cogumelos


     Depois de sentir o primeiro baque, Fernando caiu como homem – na giratória – oferecendo a pequena cobertura que ajudou Tomás a alcançar a trincheira. Cinco segundos a salvo no buraco, Tomás ainda tremia involuntariamente com os tiros explodindo blocos de terra sobre sua cabeça, cobrindo o ar com uma poeira vermelha, constantemente atravessada por gritos e estilhaços do mundo.
     Mas uma batalha estúpida numa guerra sem motivos reais. Interesses de tubarões inimigos em partes diferentes do mundo. Cinco engravatados jogando xadrez e discutindo pelo telefone. Cidades transformadas em tapetes de escombro + ferro distorcido. Horizonte em chamas. Pouco depois dos cogumelos. Corpos inchados flutuando em cada rio poluído. Cabeças, troncos e membros arrancados, apodrecendo sob a chuva ácida.
     A própria Mãe Natureza agonizava no leito de morte. Enquanto recarregava, Tomás foi acertado pela inesperada revelação de que tudo estava interligado – como as flores e as abelhas, que são, na verdade, um único organismo. Ele sentiu que tudo estava interligado, e que esse tudo morria.
     Tomás, que nunca foi de sonhos lúcidos, teve a insistente impressão de estar sonhando. Interrompeu o processo de recarga e deu um murro no chão, pra ter certeza.
     Sim – aquilo era exatamente o que ele aprendera, durante toda a vida, a interpretar como sendo a Realidade – logo, ele estava sonhando.
     Aquilo não tinha nenhuma qualidade de Realidade. Engraçado, na verdade, que ele pudesse se confundir por tanto tempo...
     Tomás recordou o insondável, e lembrou os primeiros dias de tédio, quando resolvera sonhar para passar o tempo. Lembrou-se dos primeiros 1.728.000 anos de perfeição – em que não sonharia nada além da pura realização e prazer. Enquanto ainda ouvia os tiros e gritos que sonhava, Tomás lembrou as experiências oníricas que empreendeu depois do primeiro período de contínuos caprichos. Lembrou-se de como o tédio do prazer constante o levara a se arriscar em sonhos cada vez mais imprevisíveis e permeados por fatias mais gordas de loucura e caos. Em meio à guerra fantasiosa que o rodeava, sentiu de novo o frenesi atrevido da antiga ânsia de perder o controle – algo no qual ele ainda se deliciava, dentro de cada junkie.
     Num misto de raiva e divertimento, Tomás compreendeu que finalmente havia atingido o estado de pesadelo, e que sonhava com suicídio.
     Como em qualquer pesadelo do tipo, experimentado por qualquer um de nós, é natural que se acorde logo antes do fim – assim, Tomás largou a arma dentro da trincheira e sem hesitação, ou medo, caminhou na direção do inimigo. Esteve sob a mira certa de uma metralhadora, por certo tempo, mas aquele soldado acordou a tempo de soltar o gatilho, já que não existe razão para matar a si mesmo, depois de perceber que você estava apenas sonhando com isso.
     Um por um, cada pássaro e cada pessoa – cada folha e todo ser vivo – descobriu ser apenas um; que estava, na verdade, sonhando ser cada um deles.
     De forma que o mundo desapareceu e Deus, satisfeito, não voltou a sonhar por um período igualmente longo de tempo.

 




 


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